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Liquidez na Renda Fixa Digital: o que falta para acelerar a adoção institucional
Investimentos Alternativos
26/02/20267 min de leitura320 visualizações23 compartilhamentos

Liquidez na Renda Fixa Digital: o que falta para acelerar a adoção institucional

A tecnologia da Renda Fixa Digital melhora registro e liquidação, mas liquidez institucional exige mecanismo, regra e base compradora. Enquanto o arcabouço regulatório limitar o secundário, o carregamento até o vencimento seguirá sendo a premissa padrão.

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A Renda Fixa Digital (RFD) já provou que tem tração. Ela encontrou market-fit no varejo ao combinar ticket baixo, prazos curtos e retornos competitivos, além de operar sobre um trilho mais eficiente de registro e distribuição. O salto para adoção institucional em escala, porém, esbarra em um tema que comitês tratam com pragmatismo: liquidez.

A mensagem central é direta: a liquidez continua sendo um dos maiores gargalos para a adoção institucional da RFD porque, apesar das possibilidades trazidas pela tecnologia (registro mais transparente, liquidação mais eficiente e melhor rastreabilidade), a liquidez “de verdade” depende de regras e mecanismos de mercado que ainda são limitados pelo arcabouço regulatório. Enquanto a infraestrutura digital melhora o trilho operacional, a formação de um secundário mais profundo segue condicionada a permissões, interoperabilidade e governança de negociação.

O primeiro problema: liquidez é uma palavra com múltiplos sentidos

Parte da fricção nasce de um ruído conceitual. Em crédito, liquidez pode significar pelo menos três coisas.

A primeira é liquidez do lastro e das garantias: a capacidade de converter o ativo subjacente em caixa sem destruição excessiva de valor quando ocorre estresse. Um crédito pode ser “ilíquido” no mercado secundário e ainda assim ter boa liquidez de garantia, reduzindo perdas em eventuais cenários negativos.

A segunda é liquidez de mercado: a capacidade de vender o ativo para terceiros com preço razoável e previsibilidade de execução. É isso que o investidor institucional costuma chamar de liquidez, porque impacta mandato, alocação e gestão de risco.

A terceira é liquidez operacional: a capacidade de registrar titularidade, processar eventos, liquidar pagamentos e conciliar posições com segurança. É aqui que a tecnologia da RFD tende a trazer ganhos mais imediatos — e isso é valioso. Só não resolve o ponto central do institucional: existir contraparte e price discovery.

Essa separação ajuda a destravar a análise. Quando alguém diz “tem liquidez?”, a pergunta técnica correta é “qual liquidez, em qual camada, com qual mecanismo?”.

O que a tecnologia melhora — e por que isso ainda não basta

A tokenização, como infraestrutura, reduz fricções que o mercado tradicional carrega há décadas. Registro digital auditável, automação de regras, rastreabilidade de titularidade e possibilidade de liquidação mais eficiente melhoram a experiência e a governança do ciclo do ativo. Em muitos casos, isso também reduz custos e aumenta transparência.

Esses ganhos são reais e devem ser reconhecidos. Eles tornam o produto mais “operável” e mais monitorável. Só que o investidor institucional não mede liquidez pelo quão eficiente é a liquidação de um evento. Ele mede liquidez pela probabilidade de sair antes do vencimento sem depender de um comprador específico e sem aceitar deságios imprevisíveis.

A tecnologia constrói um trilho melhor. A liquidez de mercado exige também estação, regra e fluxo: ambiente de negociação, participantes, governança de preço e integração entre plataformas.

O papel da regulação: infraestrutura que organiza e, ao mesmo tempo, limita

A RFD cresceu no Brasil, em grande parte, em torno de estruturas distribuídas por plataformas sob a RCVM 88. Esse regime trouxe previsibilidade ao organizar deveres de diligência, suitability, disclosure e segregação patrimonial. Para o varejo, isso ajudou a reduzir fricção e risco reputacional do “novo”. Para o mercado como um todo, isso criou um trilho claro de distribuição.

A consequência é que a regulação funciona como infraestrutura: ela habilita escala ao reduzir incertezas. Mas ela também delimita como a liquidez pode evoluir. A formação de um mercado secundário mais profundo depende de arranjos e permissões específicos. Sem isso, a negociação subsequente tende a ocorrer de forma fragmentada, muitas vezes dentro do “silo” da própria plataforma onde o investidor comprou o ativo.

Esse ponto é crítico para o institucional. Fragmentação reduz base compradora, prejudica formação de preço e aumenta o custo de saída. O resultado é um mercado onde a regra implícita continua sendo carregar até o vencimento, com exceções pontuais quando há mecanismo explícito de saída.

“Tokenização = liquidez” é um atalho que custa caro

O erro mais comum é importar uma intuição do mundo cripto (negociabilidade 24/7) para o mundo do crédito. Em crédito, negociabilidade não nasce do relógio; nasce do mecanismo.

O registro pode operar 24/7. A pergunta é se existe contraparte, se há governança de preço e se a transferência está ancorada em um arcabouço que suporte disputa, fiscalização e continuidade operacional. Sem essas peças, “liquidez” vira marketing.

Para o profissional de investimentos, isso muda o vocabulário. Em vez de aceitar “tem liquidez”, é preciso exigir que o emissor ou a plataforma descreva: onde acontece a negociação, como se forma o preço, quais são os custos, quais são os limites e quais são os procedimentos em evento de estresse.

O que já existe na prática como saída antes do vencimento

Mesmo sem um secundário profundo, existem mecanismos que, em alguns casos, oferecem alternativa ao carregamento até o vencimento.

Algumas estruturas preveem recompra ou atuação de um agente de liquidez. Outras permitem cessão dentro do ecossistema da própria plataforma. Há também iniciativas que buscam aproximar a negociação de ambientes mais institucionais, conectando tokenização a infraestrutura de mercado já consolidada.

O ponto central é que esses mecanismos precisam estar documentados. Liquidez não pode aparecer como promessa implícita; ela precisa aparecer como regra: condições de saída, limites, prazos de processamento e formação de preço. Quando isso não está explícito, o investidor deve tratar a posição como ilíquida e precificar essa realidade.

O caminho para destravar liquidez: portabilidade, agregação e regras

A evolução de liquidez na RFD tende a seguir um roteiro conhecido em mercados fragmentados. Primeiro, portabilidade: a possibilidade de o investidor não ficar preso à plataforma onde comprou. Depois, agregação: mecanismos que conectem demanda e oferta entre múltiplas plataformas. Por fim, padronização de regras: o que permite comparar ativos e construir confiança em price discovery.

O arcabouço regulatório é peça central desse processo. Não se trata de “liberar secundário” por slogan. Trata-se de desenhar, de forma institucional, como a negociação subsequente pode ocorrer com governança, transparência e responsabilidades claras. É isso que reduz risco reputacional e atrai capital profissional.

Implicações práticas para quem aloca e para quem estrutura

Para o investidor institucional, a postura madura é clara: assumir carregamento até o vencimento como base, abrir exceções apenas com mecanismo comprovado, e tratar liquidez como restrição de mandato (prazo, concentração, elegibilidade), não como benefício.

Para originadores e plataformas, o avanço institucional depende menos de narrativas sobre “mercado 24/7” e mais de disciplina: regras de cessão, trilhas de evidência, comunicação em eventos e governança de preço. Em suma, transformar liquidez em mecanismo auditável.

Conclusão

A liquidez ainda é o grande gargalo para a adoção institucional da Renda Fixa Digital porque a tecnologia resolve com rapidez a camada operacional, enquanto a liquidez de mercado exige arcabouço, interoperabilidade e governança de negociação. A RCVM 88 organizou a distribuição e reduziu incerteza, mas o salto para um secundário mais profundo depende de evoluções regulatórias e de mecanismos que conectem plataformas e compradores.

Para o profissional de investimentos, a regra de ouro permanece simples e útil: liquidez não é um adjetivo. Liquidez é um mecanismo. Quando o mecanismo está documentado, a análise ganha objetividade. Quando ele não existe, a decisão correta é tratar como posição a ser carregada até o vencimento — e precificar o risco de iliquidez como parte do retorno.

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