O Banco Central abandonou a blockchain pública do Drex. Em março de 2026, durante o LIFT Day em Brasília, ficou claro que o projeto mudou de direção: saiu do Hyperledger Besu e passou a focar em reconciliação de gravames, um problema operacional concreto do sistema financeiro brasileiro. Ao mesmo tempo, o mercado de tokens de ativos reais (RWAs) no Brasil cresceu 2.249% em um ano e já movimenta R$ 2,876 bilhões. Esses dois movimentos, juntos, redesenham o cenário de crédito para os próximos anos.
Este artigo analisa o que mudou no Drex, como a tokenização de ativos reais está ganhando escala no Brasil e o que isso significa para empresas que dependem de crédito.
O Drex mudou de rota: menos blockchain, mais infraestrutura
O projeto Drex nasceu como a moeda digital do Banco Central, construída sobre a rede Hyperledger Besu. A proposta original envolvia blockchain pública, contratos inteligentes e uma camada de programabilidade para o real digital.
Na prática, o BC encontrou obstáculos regulatórios e operacionais. A privacidade de transações em blockchain pública e o desempenho da rede não atendiam aos requisitos do sistema financeiro nacional. O resultado foi uma reformulação completa.
O Drex agora entra em fase de implementação com foco em reconciliação de gravames. Gravames são as restrições jurídicas que pesam sobre ativos usados como garantia em operações de crédito. Hoje, verificar se um imóvel ou veículo tem gravame exige consultas manuais a diversos cartórios e sistemas. O processo é lento, caro e sujeito a erros.
Com o novo modelo, o BC busca criar uma infraestrutura centralizada que permita registrar e consultar gravames de forma automática. A blockchain saiu do centro do projeto, mas o objetivo final permanece: reduzir fricção nas operações de crédito e tornar garantias mais líquidas.
Para empresas que tomam crédito com garantia real, essa mudança tem impacto direto. Um sistema eficiente de gravames reduz o tempo de aprovação de operações, diminui custos de due diligence e amplia o universo de ativos aceitos como colateral.
LIFT Day 2026: três verticais que convergem para crédito
O LIFT Day aconteceu em 31 de março de 2026, em Brasília, organizado pelo Banco Central. O evento reuniu resultados de três verticais de pesquisa e desenvolvimento que, juntas, formam o arcabouço tecnológico para o futuro do crédito no Brasil.
LIFT Learning publicou um relatório sobre tokenização de ativos reais. O documento aborda três dimensões: aumento de liquidez de ativos tradicionalmente ilíquidos, democratização do acesso a investimentos antes restritos a grandes players, e redução de custos operacionais na emissão e gestão de títulos.
LIFT Data focou na integração entre Open Finance e dados ESG, com olho na COP30. A lógica é que dados abertos e padronizados sobre sustentabilidade vão influenciar decisões de crédito. Instituições financeiras que precificam risco climático de forma mais precisa conseguem oferecer taxas melhores para empresas com boas práticas ambientais.
LIFT Lab reuniu experimentos práticos com Pix, Drex, embedded finance e inteligência artificial. A vertical mostrou como essas tecnologias podem ser combinadas para criar produtos de crédito mais rápidos e mais baratos.
O ponto central do LIFT Day é que o Banco Central não está tratando tokenização, Open Finance e Drex como projetos isolados. A convergência dessas frentes cria uma infraestrutura integrada onde ativos tokenizados servem como garantia, dados abertos alimentam modelos de risco e o Drex facilita a liquidação.
O mercado brasileiro de tokenização já tem escala
Enquanto o BC redesenha a infraestrutura pública, o mercado privado de tokenização no Brasil ganhou tração significativa.
A XDC Network lidera o volume de ativos tokenizados no país, com R$ 2,68 bilhões em emissões. A rede superou concorrentes como XRP Ledger, Polygon e Plume em volume total. Esses números refletem uma adoção real: empresas estão tokenizando recebíveis, cotas de fundos e títulos de dívida em redes descentralizadas.
O mercado brasileiro de tokens de ativos reais cresceu 2.249% em um ano, atingindo R2,876bilho~esemjaneirode2026,segundodadosdaCoinTelegraphBrasileTradingView.Aprojec\ca~odosetoreˊqueatokenizac\ca~opodedestravarateˊR 7 trilhões em crédito a partir de 2026, considerando ativos que hoje não são aceitos como garantia por falta de infraestrutura de registro e liquidação.
Para colocar esses números em perspectiva: o mercado global de RWAs tokenizados atingiu US27,65bilho~es,comaltade4 12,88 bilhões desse total, e crédito privado on-chain já soma US$ 5 bilhões. Em três anos, o crescimento acumulado foi de 308%.
O Brasil, proporcionalmente, cresce mais rápido que a média global. A combinação de um regulador ativo (o BC), um sistema de pagamentos moderno (Pix) e um mercado de capitais sofisticado cria condições favoráveis para a tokenização ganhar escala.
Crédito corporativo tokenizado: o caso HYBOND
Um exemplo concreto de como a tokenização está chegando ao crédito corporativo é o HYBOND, lançado pela OpenEden em parceria com o BNY (Bank of New York Mellon). O produto é o primeiro crédito corporativo high-yield tokenizado, emitido na rede Ethereum.
O HYBOND permite que investidores acessem dívida corporativa de alto rendimento através de tokens. A liquidação acontece on-chain, o que reduz prazos de T+2 ou T+3 para minutos. A custódia é feita pelo BNY, o que traz a credibilidade de uma das maiores instituições financeiras do mundo para o ecossistema de tokenização.
Para empresas emissoras, o modelo oferece acesso a uma base global de investidores sem a necessidade de listagem em bolsa ou emissão via mercado tradicional de capitais. Para investidores, o token oferece liquidez superior à de títulos privados tradicionais, além de transparência sobre o colateral.
O HYBOND ainda opera em escala limitada, mas o sinal é claro: crédito corporativo tokenizado deixou de ser conceito e virou produto.
Riscos: concentração em Ethereum e alerta do FMI
O crescimento da tokenização não vem sem riscos. O Fundo Monetário Internacional (FMI) publicou um alerta sobre a concentração de ativos reais tokenizados na rede Ethereum. A preocupação é que a dependência de uma única infraestrutura cria risco sistêmico.
Se a rede Ethereum enfrentar problemas técnicos, ataques ou mudanças regulatórias em jurisdições-chave, um volume relevante de ativos financeiros tokenizados pode ser afetado simultaneamente. O FMI defende a diversificação de infraestrutura e a criação de padrões de interoperabilidade entre redes.
Esse alerta é relevante para o mercado brasileiro. A maior parte dos projetos de tokenização no Brasil opera em redes privadas ou semiprivadas (como a XDC), mas a tendência de migração para redes públicas como Ethereum pode ampliar essa exposição.
Para CFOs e gestores de risco, o ponto prático é: ao avaliar operações de crédito envolvendo ativos tokenizados, a infraestrutura tecnológica subjacente precisa entrar na análise de risco. A rede em que o token foi emitido, o mecanismo de custódia e a jurisdição do emissor são variáveis tão importantes quanto o rating do ativo.
O que muda para quem toma ou concede crédito
A convergência entre Drex, tokenização e Open Finance cria três mudanças práticas para o mercado de crédito em 2026:
Garantias mais líquidas. Ativos que hoje não servem como colateral por dificuldade de registro ou avaliação (recebíveis pulverizados, cotas de fundos fechados, direitos creditórios de nichos específicos) passam a ser tokenizáveis e verificáveis em tempo real. O sistema de gravames do Drex amplia esse efeito ao padronizar o registro de ônus sobre esses ativos.
Precificação de risco mais granular. A combinação de dados de Open Finance com informações on-chain permite modelos de crédito que vão além do balanço contábil. Fluxo de caixa em tempo real, histórico de transações e dados ESG entram na equação.
Acesso a crédito internacional. Produtos como o HYBOND mostram que a tokenização remove barreiras geográficas. Uma empresa brasileira pode acessar crédito de investidores globais sem intermediários tradicionais, e investidores estrangeiros podem financiar operações brasileiras com mais transparência e menor custo de transação.
Essas mudanças não vão acontecer de uma vez. O Drex ainda está em fase de implementação, a regulamentação de tokens de ativos reais evolui semestre a semestre, e a infraestrutura de custódia precisa amadurecer. Mas a direção está definida.
Conclusão: pragmatismo como sinal de maturidade
A decisão do Banco Central de abandonar a blockchain pública no Drex pode parecer um recuo. Na prática, é um sinal de maturidade. O BC identificou que o problema mais urgente do crédito brasileiro não é a falta de uma moeda digital programável, mas a ineficiência do sistema de gravames.
Ao mesmo tempo, o mercado privado de tokenização provou que a tecnologia funciona em escala. R2,876bilho~esemativostokenizados,umcrescimentode2.249 7 trilhões em crédito são números que falam por si.
Para empresas que dependem de crédito com garantia real, o momento pede atenção a três frentes: acompanhar a evolução do Drex e seus impactos em processos de garantia, avaliar a tokenização como ferramenta de captação e diversificação, e incluir risco tecnológico (infraestrutura de blockchain) na análise de operações que envolvam ativos digitais.
A DeFin Global acompanha essas transformações de perto e apoia seus clientes na navegação desse novo cenário. Se sua empresa quer entender como a tokenização e o Drex podem afetar suas operações de crédito, entre em contato com nossa equipe.

